
O que escrever sobre um livro? Sobre o que já é escrito? Então ta bom. Um dia cheguei no porão daquela casa empoeirada. O ranger da porta mostrava que fora abandonada pelos últimos moradores há anos. Uma penumbra regia o local revelando os objetos ali esquecidos. Uma cadeira no canto, tapete persa, lamparina sobre ele. Do lado direito reinava a cama velha que um dia aconchegou alguém nas noites de inverno. Ao lado dela o criado mudo com gavetas vazias. Apenas uma caneta tinteiro fazia parte da decoração do móvel. Do outro lado um espaço com cabide. Um casaco velho também tomado pelo pó estava pendurado. Ao entrar observei em mim uma grande emoção. Por ali passaram vidas, sonhos, desilusões alegrias, realizações. Sentei-me na velha cadeira feita de palha e apenas observei. Um objeto me chamou atenção. Um livro amarelado pelo tempo também fora deixado ali. Descansava sobre a pequena mesa que provavelmente serviu de escrivaninha. Tomei-o em minhas mãos e, cuidadosamente, folheei por entre as páginas. Estava vazio. Fiquei imaginando quem o havia colocado ali. Teria sido propositalmente? Ou teria sido largado pela rejeição? Folheei novamente e percebi que suas folhas haviam sido trocadas por páginas em branco. Mergulhei em meus pensamentos. De repente, observei que algo havia sido escrito na primeira página. A caneta tinteiro havia sim sido usada. Então, concentradamente li o escrito gótico. Dizia: Escreva a sua própria história.
