quinta-feira, 23 de abril de 2009

Livro



O que escrever sobre um livro? Sobre o que já é escrito? Então ta bom. Um dia cheguei no porão daquela casa empoeirada. O ranger da porta mostrava que fora abandonada pelos últimos moradores há anos. Uma penumbra regia o local revelando os objetos ali esquecidos. Uma cadeira no canto, tapete persa, lamparina sobre ele. Do lado direito reinava a cama velha que um dia aconchegou alguém nas noites de inverno. Ao lado dela o criado mudo com gavetas vazias. Apenas uma caneta tinteiro fazia parte da decoração do móvel. Do outro lado um espaço com cabide. Um casaco velho também tomado pelo pó estava pendurado. Ao entrar observei em mim uma grande emoção. Por ali passaram vidas, sonhos, desilusões alegrias, realizações. Sentei-me na velha cadeira feita de palha e apenas observei. Um objeto me chamou atenção. Um livro amarelado pelo tempo também fora deixado ali. Descansava sobre a pequena mesa que provavelmente serviu de escrivaninha. Tomei-o em minhas mãos e, cuidadosamente, folheei por entre as páginas. Estava vazio. Fiquei imaginando quem o havia colocado ali. Teria sido propositalmente? Ou teria sido largado pela rejeição? Folheei novamente e percebi que suas folhas haviam sido trocadas por páginas em branco. Mergulhei em meus pensamentos. De repente, observei que algo havia sido escrito na primeira página. A caneta tinteiro havia sim sido usada. Então, concentradamente li o escrito gótico. Dizia: Escreva a sua própria história.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Margot

Naquele dia, Margot chegou à casa da sua amiga para mais um dedo de prosa. Cumprimentou Amélia como de costume. Elas estavam em seu consultório particular onde eram feitas sessões com tratamento alternativo. Ao entrar, Margot teve um leve pressentimento de que algo estava errado. Sua amiga tão querida mostrava insatisfação através de sua expressão arredia e imediatamente começou a falar. Questionava sobre uma festa que seu filho do meio havia participado na companhia dela e de um outro amigo bem jovem. A festa foi em uma cidade próxima e os três se divertiram muito. Pelo menos era o que parecia. Amélia acusava a amiga de ter seduzido seu filho em um determinado momento da festa, quando eles foram sentar em uma parte externa do local. O garoto havia contado o triste episódio para a mãe com o apoio de Lucas. Segundo Marcos, Margot teria deitado em seu colo e criado uma situação para que eles se beijassem. A mãe do menino, revoltada e indignada falou coisas que entristeceram profundamente Margot e não acreditou na versão da amiga. Para ela, o que o filho dizia era sempre verdade e jamais admitiu a hipótese que tudo não passava de uma fantasia de um adolescente. Margot tentou explicar que eles foram para o pátio sim e que ela recostou no ombro do amigo, que para ela era com um irmão mais novo, mas sua tão amada amiga não mais a escutou. Ela foi convidada a se retirar do local e da convivência com aquela família que tanto prezava e considerava como sendo sua também. Era inacreditável tamanha injustiça. Ela se sentiu perdida e desprezada por aqueles que faziam parte da sua vida com grandiosa intensidade. E tudo por causa de um mal entendido. Uma ilusão do mundo juvenil. Já não havia mais palavras a serem ditas mesmo que existissem. Amélia havia decidido pelo fim da amizade. Margot, chorosa, deixou a casa ser permissão para voltar.
Os anos se passaram e Margot nunca esqueceu dos momentos maravilhosos que passaram juntos. O carinho especial com todos aqueles permaneceu no coração dela e também a esperança de que um a dia a amizade tão única fosse retomada.