quinta-feira, 23 de outubro de 2008

MARIA ERA ASSIM

Maria era assim, jovem, alegre, com um nome simples. Ela filha de José e Maria. Daí vem seu nome tão solene para as mulheres daquela época. Ela vivia a brincar pelas ruas da sua cidade natal junto aos amigos. Como acabara de entrar na fase precoce da adolescência, não mais queria saber daqueles joguinhos bobos com as meninas, mas seu interesse havia se expandido para o grupo dos meninos. Lá conhecera Daniel, um garoto de classe média, com cabelos negros e olhos claros. Ele acabava de chegar de uma cidade grande. Seus pais foram transferidos e não havia sido dada a ele outra escolha de não ser segui-los devido à sua tenra idade.

No dia seguinte em que se conheceram, combinaram de ir passear no lago próximo a cidade. Daniel era menor de idade e costumava dirigir o carro dos pais no final de semana. Chegando lá estenderam a esteira de palha e, após um primeiro e ardente olhar típico dos jovens descobrindo o sexo, se amaram apaixonadamente, como dois adolescentes em uma tarde de primavera. Ao anoitecer voltaram para casa envolvidos na beleza daquele sentimento.

Passados alguns dias, Maria o procurou novamente, mas desta vez Daniel não quis vê-la pois estava arrependido dos seus atos em relação à menina moça. Maria obteve então um sentimento de frustração e a partir deste dia entristeceu-se o seu olhar.

A vida continuava naquela pacata cidade até que os pais de Maria sofreram um acidente no campo e morreram. Começava ai a vida de Maria.

Além de cozinhar, Maria precisava estudar e criar os três irmãos mais novos, além de precisar ter cuidados especiais consigo mesma por causa da gravidez precoce. Ela ia e vinha como se fosse uma jovem amadurecida, mas seu sentimento era de solidão.

Os anos se passaram, Joaquim nasceu forte e saudável e Maria vivia a sua vida. Ao saber por terceiros que o filho era seu, Daniel a procurou cobrando os seus direitos de pai. Maria o rejeitou e ele, inconformado com sua indiferença com relação a ela durante esse tempo todo, resolveu assumir o filho sem que ela soubesse. Através de um amigo em comum, financiou Joaquim nos estudos, fez por ele coisas e teve sentimentos que o seu coração nunca havia conhecido. O seu amor era incondicional. Aquele jovem, também de olhos claros, passou a ser a razão do seu viver.

Os anos se passaram e Maria, essa jovem senhora admirada por muitos e desprezada por outros pela sua atitude impertinente do passado, adoeceu e teve uma morte precoce, assim como seu pais.

Após o sepultamento, um homem aparentando seus 55 anos aproxima-se de Joaquim e com a mão em seu ombros diz.

- Filho estou ao seu lado.

O rapaz, absorto em sua tristeza reponde.

- Desculpe-me, mas não sou seu filho. Meu pai é aquele homem ali, ao lado do caixão. E entrega a Daniel uma carta deixada por Maria em um envelope.

Daniel, assustado com o acontecido volta pra casa e, vagarosamente, como quem não tem coragem de saber uma verdade abre a carta. Nela, com letras de Maria um escrito.

Obrigada por cuidar sempre do nosso filho. Com amor, Maria.